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The Pig's third smile
    Eu o beijei uma vez. Estávamos em seu carro. Ele sempre teve mais dinheiro que eu, não sei o que fazia para conseguir juntar; não sei se realmente o tinha apenas porque juntava, nunca tive coragem de perguntar. Mas estávamos em seu carro. Agora eu não me lembro mais se estávamos voltando de uma festa - ele adorava festas -, ou se estávamos voltando de algum dos bares onde gostávamos de ir. Mas eu me lembro que estávamos em seu carro, na frente do prédio humilde onde eu morava. Ele estava me dando uma carona, como sempre fazia. Eu não sei porque ele se preocupava se eu chegaria em casa vivo ou não, não sei porque ele se preocupava em me levar com ele para os lugares. Ele poderia muito bem ir sozinho a eles. Sempre encontrava conhecidos por onde ia, sempre tinha o que falar com eles, sempre tinha o que beber com eles, o que fazer com eles. Às vezes eu pensava que era apenas um estorvo em sua vida. Aquele cara quieto, que muitos julgavam anti-social, que sempre estava do lado dele como uma sombra - um penetra. Mas mesmo assim ele insistia em falar comigo. Mesmo quando eu fugia, pensava não estar sendo bom o suficiente para ele, mesmo quando eu decidia que nunca mais iria atrás dele. Ele vinha atrás de mim. Ele sempre se lembrava de mim. Mesmo quando eu queria esquecê-lo, queria deixá-lo. E eu sempre fugia. Eu não queria ser uma mancha na perfeição que ele tinha. Eu não queria achar que eu não passava de uma mancha, uma sujeira, o penetra. Às vezes eu tinha tanta certeza de que era exatamente isso o que eu era. Às vezes ele quase conseguia me provar o contrário. Dependia do dia, dependia do meu humor, do humor dele, das palavras dele. Mas naquele dia, ele havia me sequestrado da minha própria vidinha medíocre, e nós estávamos voltando de algum lugar que deveria ter sido interessante. Ele estava muito diferente naquela noite, disso eu me lembro bem. Não sei se era por causa da bebida - já que ele na verdade estava quase sempre bêbado -, não sei se era porque eu tinha acabado de chegar de uma viagem. Eu só me lembro que ele sorria para mim. Dizia abertamente que sentira a minha falta. Me abraçou, uma ou duas vezes. Ele sempre foi um amigo carinhoso. O mais carinhoso que um homem poderia ser. Às vezes ele parecia até a minha mãe. Mas naquela noite havia algo de estranho. Diferente... Peculiar. O jeito como ele me olhava. Eu era o mesmo imbecil de sempre, o mesmo feioso de sempre, e mesmo assim ele parecia ver algo de diferente em mim. Talvez eu quisesse que ele visse algo de diferente em mim. Eu queria que ele visse algo de diferente em mim, fosse lá o que isso fosse, eu queria que ele visse. Não sei se ele o viu, não sei se ele o fez apenas na minha imaginação. Mas seja a realidade como for, é na imaginação que as histórias acontecem, não é mesmo? Portanto ele viu. Ele me viu, pela primeira vez. Ele olhou para mim, e sua visão estava embaçada pela bebida. Nós estávamos no carro, na frente do prédio onde eu morava, e ele sorriu para mim. O sorriso dele era bonito, por mais que ele gostasse de negar. O sorriso dele era como eu queria que o meu próprio fosse. Parecia tímido ou esnobe da primeira vez em que se olhava. Da segunda, parecia encantador, gracioso. Da terceira, parecia malicioso, quase sádico. Eu o estava vendo pela terceira vez, naquele momento. Por mais que as palavras dele fossem carinhosas, falassem de amizade, era malícia o que eu estava vendo em seu sorriso. Era malícia o que eu queria ver em seu sorriso. Eu queria que ele me olhasse como eu queria que olhasse, queria que me olhasse como se me quisesse. Eu quis fugir. Como das outras vezes. Aquelas fugas subitamente me fizeram algum sentido lógico. Lógico... O que havia de lógico em meus pensamentos? Eu estava ali o olhando, o desejando. Eu o desejava. Eu tinha ciúmes. Ciúmes doentios. Não suportava pensar que não era importante para ele como ele era para mim. Não suportava sabê-lo. Não suportava saber que eu nunca passaria de um amigo desinteressante aos seus olhos. Eu queria que ele me desejasse. Assim como eu o desejava, assim como sempre o desejei. Eu queria que ele olhasse para mim. Naquela noite, ele estava olhando para mim. Eu não sei dizer ao certo em que momento nossos lábios se tocaram, não sei dizer ao certo quem começou. Se o desesperado era eu, se o caridoso era ele. Ele parecia perceber o meu desespero, parecia ler os meus pensamentos, ler os meus olhos. Ele se entregava a mim como nunca pensei que faria; recebia-me de braços e boca abertos quando eu me entregava a ele. Eu tinha certeza de que era apenas a sua boa ação do dia, por mais que meus olhos insistissem em ver algo nele que não estava ali. Uma reação aos meus toques, um suspiro, algum mínimo detalhe que demonstrasse que era recíproco. Queria vê-lo sentir a minha mesma excitação, a minha mesma euforia. Nada. Ele não sentia nada. Eu sei que não sentiu nada. Nada além do mesmo carinho que sempre teve por mim, nada além da velha amizade. Minha imaginação diz que ele sempre me viu, que ele sempre me sentiu. Diz que ele sempre soube sobre mim, e foi por saber que adiou tanto aquele momento, o fez parecer frio, casual. Por saber que assim eu sempre o teria em meus pensamentos, me perguntando desesperado o que ele sentiu, se ele sentiu, se ele realmente me viu. Minha imaginação me diz que eu o beijei uma vez.
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artistic artistic
Current Music:
Depeche Mode - Enjoy the silence
* * *
(Un)Dead Pig
? )

    Havia um cheiro desagradável no ar. Cheiro de morte. Olhou para os olhos fechados do homem ao seu lado, as mãos entrelaçadas, pousadas sobre a sua barriga. Soube que ele estava morto. Por mais que seu peito ainda se enchesse de ar, por mais que seu rosto estivesse corado com o sangue que ainda circulava em suas veias; sabia que estava morto para o seu coração.

    Nada sentia ao beijar seus lábios. Eram frios, por mais macios que fossem, por mais carinhosos que lhe parecessem. Eram gelados. As mãos que tocavam o seu corpo não mais lhe tocavam a alma. Excitavam-no, excitavam-se com ele. E quando acabava, tudo o que sentia era nojo. Arrependimento.

    Não tinha talento para necrofilia. Não acreditava em vida após a morte. Não acreditava em mudanças. Começava a se perguntar se não havia sido sempre assim, se ele não estivera sempre enganando a si mesmo. Perguntava-se em que momento gostara de estar com outro homem. Mas o que realmente não conseguia responder era em que momento havia pensado que conseguiria lidar com uma situação assim. Seus pais já estavam velhos, e mesmo assim ainda sonhavam um dia vê-lo casado com uma bela garota. Queriam netos correndo pela casa, brincando com o cachorro. O que diriam se soubessem que estava morando junto de seu amigo do colégio, aquele que já havia frequentado tanto a sua casa, que já havia bebido com sua família, cantado com eles no karaokê. Ultrajante.

    Viu os olhos dele se abrirem, encontrarem-se com os seus próprios. Pensou ter visto o próprio reflexo naquela imensidão negra. A própria morte. A doença se espalhava por seu corpo, corroía-lhe os ossos, apodrecia-lhe as entranhas. Estava se tornando um cadáver como ele. Morria quando via-o sorrir. Quando via que por mais peçonhenta que fosse a situação, ele ainda sorria. Sorria por estar ao lado de um morto-vivo.

    Tentava fugir quando aquelas mãos frias o tocavam. Quando não podia fugir fisicamente, deixava o corpo, e ia embora com o espírito. Mas ele percebia. Não havia como não perceber. Ele se desesperava, tentava fazer melhor, fazia de tudo para agradá-lo. Consolava-o quando todas as suas tentativas mostravam-se inúteis. Consolava. E depois trancava-se no banheiro. Sabia que ele estava chorando. Às vezes podia ouvir seus soluços, seus gemidos. Morto.

    Fugiu um dia de seu leito de podridão. Saiu pelas ruas e fingiu ainda viver. Alguns até mesmo acreditavam. Tão ingênuos. Encontrou mulheres, trouxe-as para o seu apartamento. O cheiro forte de seus perfumes parecia anular o cheiro de formol que havia pelas paredes. O toque de suas mãos delicadas parecia esquentar seu corpo frio. Esquentava e queimava. Queimava com o toque de uma mulher qualquer. Gemia por causa de uma mulher qualquer. Quase pensou que amava uma mulher qualquer.

    Até que ele voltou para casa, e o viu com uma mulher. Ele gritou. Saiu de casa batendo a porta com raiva. Embebedou-se. Chegou em casa chorando e lhe pedindo perdão. Perdão pelo crime que o outro havia cometido. Por um momento, quis que ele o incriminasse, quis que ele fosse embora.

    Um dia chegou em casa sentindo um aroma peculiar no ar. Não era o formol. Era o perfume. Forte, forte demais. Uma estranha aflição o tomou, algo que não sentia há tanto tempo: era ciúme.

    Ouviu-o gemer. Há tanto tempo não o ouvia. O som alto, melodioso, excitante. A voz expressando em ruídos enlouquecidos o que as palavras nunca poderiam dizer. Lembrou-se de como havia sido seu primeiro beijo bêbado, a primeira vez em que seus corpos se tocaram curiosos, divertindo-se com o errado, divertindo-se com o perigo. Quis ser novamente aquele adolescente rebelde, fazendo tudo o que sua vontade expontânea lhe mandasse fazer. Sem nenhum sentimento, sem nenhuma obrigação. Gostava de quando o seu coração batia por ele sem que o forçasse a fazê-lo apenas para agradar.

    Já nem sequer o agradava. Quem o fazia era aquele homem, aquele homem que via sobre o seu corpo, através da porta entreaberta do quarto. Aquele homem gostava de tocá-lo, aquele homem era vivo. Sentiu inveja de sua vitalidade. Sentiu ciúme. O antes falecido mostrava-se cada vez mais acordado. Podia ouvir o sangue correr louco em suas veias, podia ouvir sua respiração densa, ofegante. Ouvia-o suspirar, o som de seus beijos fortes. Sentiu saudade.

    Quis ele próprio deixá-lo daquele jeito. Tornar verdadeiro o seu desejo, o sorriso em seu rosto. Vivo. Por que só o conseguia matar? Talvez o morto fosse ele próprio. Talvez a degeneração houvesse começado em suas próprias entranhas.

    Ouviu alguém chamar seu nome, um gemido descontrolado. Mais uma vez. De olhos fechados, o peito arfando, o corpo se contorcendo de prazer. O seu nome. O seu nome escapando daqueles lábios tão quentes. O seu nome sendo chamado, o seu corpo sendo ansiado. Aquele corpo frio. Aquele coração que já não batia. Naquele momento, ele chorou.

    O homem deixou a casa, levando consigo o cheiro de perfume, o cheiro de sexo. E ele permaneceu estirado sobre a cama, o formol impregnado em sua pele, os olhos vidrados, vazios. Lábios frios. Corpo gelado. Morto.

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gloomy gloomy
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Bauhaus - Bela Lugosi's dead
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Pig's dead end
    Hoje eu queria ter tido um passado traumático. Ter sido pobre, criada por pais incompreensivos e violentos, apedrejada por coleguinhas na escola, e o que mais viesse. Queria poder fazer uma análise clara e objetiva da minha vida, e culpar o meu passado por todas as minhas neuroses e paranóias.

    Eu queria olhar para frente e perceber que há um caminho que eu posso seguir, ao invés de ver apenas lugares dos quais eu quero desviar. Queria um milagre. Uma banda de sucesso, uma carreira de atriz, modelo, qualquer coisa. Eu queria a salvação.

    Hoje eu queria ser uma rockstar. Ser a pessoa que você acha interessante por nunca ter conseguido se encaixar em lugar nenhum, por nunca ter conseguido seguir as regras da sociedade, por nunca ter conseguido se encontrar. Hoje eu queria dizer que minha falta de objetivos vai me levar a algum lugar.

    Hoje eu queria ser Bonnie ou Clyde. Viver perigosamente por não ter mais o que fazer. E depois morrer.

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blank blank
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Android Lust - Panic wrought
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Bewitching Pig
    Naquele dia teve certeza que era destino. Um destino que lhe resolveu ser amigável, um destino que se deixou correr exatamente do jeito que planejou. Poderia ter ido para casa quando uma, duas oportunidades passaram logo a sua frente, porém algo lhe disse para esperar. Esperar até que ela chegasse.

    Poderia ter percorrido o caminho que conhecia, o caminho que a levaria de volta à monótona mediocridade, porém resolveu seguí-la. Precisava ouvir sua voz por mais tempo, precisava observar distraída o jeito como seu nariz parecia o de uma estátua grega, os dentes brancos e levemente tortos que seu sorriso revelava.

    Teve certeza de que era louca. E por um momento sentiu que alguém compartilhava de sua loucura. Por um momento permitiu-se sonhar bobamente.

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happy happy
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Ella Fitzgerald - Bewitched, bothered and bewildered
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A Pig in a plane
    Ele dormia ao seu lado no avião. Os braços cruzados, a cabeça apoiada na janela, as longas pernas tentando se esticar sob o banco da frente. Algo em seu rosto, em seus olhos fechados, transmitia tamanha inocência e serenidade, que por um momento ele pareceu um garoto aos seus olhos. Um menino travesso que roubara o terno de seu pai, e imitava seus gestos de maneira caricata.

Por um momento quis acordá-lo, perguntar-lhe o seu nome, quem ele era, o que faria em sua viagem, com os pensamentos repletos de uma curiosidade sem propósito. Sabia que não teria coragem. Parecia até mesmo pecado macular um sono tão delicioso. Sem que percebesse, sorria diante do homem desconhecido.

Viu-o se remexer no banco, como se apenas o olhar que lhe lançava pudesse incomodá-lo. Virou o rosto, e fitava distraído uma comissária que passava no corredor do avião, quando subitamente sentiu um peso em seu ombro. Segurou o riso.

E timidamente encostou o rosto em seus cabelos, sentindo sua textura macia, seu cheiro suave de xampu. Fechou os olhos, deixando que sua cabeça se apoiasse sobre a dele. Perguntava-se que sonhos ele teria, se eles eram belos e vívidos como o seu rosto. Se ele os compartilharia consigo naquela viagem.

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Casa da vovó
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exhausted exhausted
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My Piggy Valentine

Olhava distraído o rosto dele. Seus cabelos sedosos caídos sobre aqueles olhos negros tão profundos, contrastando com sua pele clara. Sentia-se feliz por tê-lo ao seu lado aquele dia. Depois que ele começara a namorar uma garota, sua amizade nunca mais havia sido a mesma. Não havia mais aqueles dias em que se encontravam apenas para ter a companhia um do outro, falar qualquer besteira, ou até mesmo permanecer em silêncio, como faziam naquele momento.

Era véspera do dia dos namorados, e também véspera do seu aniversário. E era isso o que estava fazendo com ele, comemorando o seu aniversário antecipadamente. Por causa do maldito compromisso que ele tinha com sua namorada no dia seguinte. Suspirou. Ao menos estava contente por ele haver se importado em encontrá-lo em algum momento para compensar o primeiro aniversário que passaria sem a sua companhia - desde o dia em que se conheceram.

Deitou-se sobre a areia da praia, aquela areia que os recebia todos os anos no dia quatorze, e fechou os olhos quando a luz do sol caiu sobre eles.

- Você vai ter que me dar um presente de aniversário muito bom para compensar a sua ausência. - brincou.

Ouviu-o rir, e sentiu seu braço esparrar de leve em seu próprio. Ele se deitara ao seu lado.

- O que você quer ganhar de aniversário? - ele perguntou com carinho.

- Boa pergunta... - respondeu rindo, virando-se e abrindo os olhos para fitá-lo.

O brilho tão forte de sua pele sob o sol, os olhos cerrados com força por causa da claridade, os lábios grossos, tão bem delineados, tão vermelhos... Levantou as costas do chão, apoiando-se em um dos braços, para que pudesse se aproximar dele, olhá-lo mais de perto. Ele era tão bonito... Pensava enquanto tirava alguns fios de cabelo negro da frente de seu rosto, delicadamente. Sua namorada tinha sorte de poder beijá-lo sempre que quisesse, poder acariciar sua pele macia, sentir o calor de seu corpo, a força de seus braços. Suspirou. Perguntava-se se ela ao menos valorizava as longas horas que passava com ele, se ela valorizava sua companhia, se ela sequer conversava com ele. Tinha certeza de que ela não gostava tanto de estar com ele quanto ele próprio gostava.

- Eu posso dar um beijo em você...? - pediu timidamente, em um murmúrio.

Ele abriu os olhos, fitando-o confuso, prestes a rir. Porém tão logo percebeu a seriedade daquele pedido, suas feições se contraíram, sem conseguir disfarçar seu estranhamento.

- De aniversário... - acrescentou, desviando o olhar, envergonhado.

Sabia que ele queria compreender o que estava acontecendo, o motivo daquele pedido. Porém nem ele próprio saberia explicá-lo. Não sabia explicar o que era o ciúme que sentia ao vê-lo junto dela, o ódio que sentia por ela tê-lo roubado de si, por ela ser dele algo que nunca poderia ser.

- Se é isso o que você quer... - ouviu-o responder receoso, preocupado.

Pensava que aquele era um bom momento para desistir daquela idéia imbecil, fazê-lo esquecer suas palavras sem sentido, porém não teve coragem de se afastar ao sentir suas mãos grandes segurarem-lhe o rosto, aqueles dedos ásperos em contato com a sua pele. Seus olhos se fecharam, e seus lábios se entreabiram para que deles escapasse um suspiro. Sentia seu coração pular freneticamente dentro de seu peito, preenchendo o seu corpo com uma ansiedade insuportável. Estava com medo de que sua amizade nunca mais fosse a mesma após aquele beijo, ao mesmo tempo em que o toque das mãos dele lhe trazia a infantil esperança de que tudo poderia mudar para melhor.

Antes que pudesse se dar conta, sentiu os lábios dele contra os seus, acariciando-os suavamente, fazendo um forte arrepio percorrer o seu corpo. Ele o beijava devagar, com cuidado, como se aquele fosse seu primeiro beijo. E de fato parecia ser. Era a primeira vez que tinha aquela sensação ao beijar alguém, aquela sensação de que podia voar, de que não havia problemas, complicações. Existia apenas aquela indescritível felicidade de estar perto dele, com o corpo colado ao dele. Existia apenas ele.

- Eu quero ser sua namorada... - murmurou.

Ele deu um riso que deixava transparecer seu pânico diante daquelas palavras.

- Não diga bobagens, você é um homem. - ele respondeu, afastando-se gentilmente.

Abaixou o olhar, triste.

- Se eu fosse uma mulher, você seria meu namorado? - perguntou.

- Eu preciso ir para casa. - ele anunciou enquanto se levantava do chão, as mãos batendo e sacudindo as próprias calças no intuito de tirar delas a areia. - Até segunda-feira no colégio. - despediu-se brevemente com um sorriso no rosto.

Viu-o caminhar para longe, ignorando sua pergunta, ignorando os sentimentos confusos que ele, e apenas ele, lhe causava.

- Se eu fosse uma mulher, você seria meu namorado? - insistiu, em um volume de voz mais alto, para que ele pudesse ouvir.

Ele apenas virou o rosto, olhando-o de relance, sorrindo levemente, sem dizer nada. E aquele olhar, aquele sorriso, aquele beijo, tudo o confundiu ainda mais, tirou sua noite de sono.

Era o seu aniversário, porém não se sentia feliz. Sentia-se perturbado como nunca antes, perguntava-se inquieto o que ele quis dizer com o olhar que lhe lançou, com o sorriso em seu rosto. Perguntava-se o que ele sentira quando o beijou, se ele havia gostado, se ele havia repudiado. Queria ser uma mulher. Essa era a única certeza que tinha em sua mente. Gostava de ser homem, mas se precisava se transformar em uma mulher para que ele o aceitasse, faria isso.

Procurou o estojo de maquiagem de sua irmã, e foi até um espelho. Cobria suas olheiras com base, tentava realçar seus olhos cansados com sombra e delineador, pintava seus lábios com batom. Tentava parecer feminino, parecer uma mulher. Penteou seus cabelos como elas penteavam os delas, vestiu-se com um vestido vermelho, enfeitou-se com bijuterias, apertou seus pés em sapatos de salto alto.

E saiu de casa ansioso, caminhando desengonçado sobre o salto, os pés latejando à cada passo, os olhos lacrimejando com a dor. Apoiava-se em paredes e muros para não cair, rumo à casa dele. Era ainda muito cedo na manhã, alguns bêbados que ainda estavam nos bares riam quando o viam passar, porém ele não se importava, não se deixava abalar. Queria mostrar a ele que podia ser uma mulher, que poderiam passar juntos o seu aniversário.

Tocou a campainha de seu apartamento, sem pensar que talvez as pessoas ali poderiam ainda estar dormindo, já que era sábado. Tocou de novo. E só então conseguiu ouvir alguma movimentação do lado de dentro.

Viu um garoto sonolento ainda de pijama abrir a porta. E toda a sua sonolência pareceu transformar-se em espanto ao bater os olhos na pessoa à porta.

- O que achou? - perguntou-lhe com um enorme sorriso no rosto.

Ele olhou para os lados, como se temesse que alguém pudesse os estar observando, e fechou a porta da própria casa, segurando o outro pelos ombros, e empurrando-o para algum canto isolado nos corredores do andar.

- O que você pensa que está fazendo? - brigou, falando baixo como se quisesse que ninguém o ouvisse.

- Eu posso ser uma mulher... - ele explicou ainda sorrindo, deixando que os braços lhe envolvessem o pescoço.

Então sentiu as mãos grandes dele afastarem seus braços rudemente.

- Você não é uma mulher, você é um garoto de vestido. - brigou mais uma vez. - Agora vá pra casa e tire esse vestido antes que alguém o veja assim.

Não soube por quê aquelas palavras o afetaram tanto. Talvez estivesse horrível e irreversivelmente afetado desde o dia anterior - ou quem sabe até mesmo desde antes. Dar-se conta disso, ao mesmo tempo em que percebia que não havia nada o que pudesse fazer, provavelmente foi o motivo que o levou às lágrimas. Caíam tristes e silenciosas de seus olhos, borrando a maquiagem que fizera com tanto cuidado, com tanta esperança.

- Mas o que houve com você? - ele perguntou confuso, ainda brigando.

- Eu quero ser uma mulher... - foram suas palavras fracas, que faziam seu peito doer ao deixar sua boca. - Eu quero ser sua namorada...

Sentiu seus dedos ásperos lhe tocarem o rosto. Porém eles não o acariciavam. Eles o deixavam marcado com um tapa.

- Não seja idiota! - ouviu-o exclamar indignado. - Agora volte para casa e tire essa idéia imbecil da sua cabeça!

Ele então lhe deu as costas, e adentrou seu apartamento.

As pernas fraquejaram, os pés doendo o pediram para descansar. E assim que se sentou no chão, viu-se tomado por uma estranha letargia. Como se não tivesse mais forças para sentir felicidade ou tristeza, como se não conseguisse mais chorar, como se não quisesse mais respirar. Era injusto. Seus sentimentos eram fortes e esmagadores, sentia-se frágil, confuso, fraco, sensível... Sabia que tudo estava perdido, e mesmo assim ainda conseguia ter esperanças, mesmo assim não conseguia deixar de sonhar, não conseguia esquecer seu sentimento. Seu coração estava devastado como o de uma mulher. E mesmo assim não passava de um garoto de vestido.

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creative creative
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Ella Fitzgerald - My funny valentine
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A Pig and a friend

O som ensurdecedor do silêncio me atormentava. Eu sabia que ele não o ouvia como eu. Não se sentia constrangido como eu.

Queria lhe falar sobre qualquer assunto banal, mas não conseguia formular frases, pensar em palavras. Tudo o que eu conseguia era olhar a sua boca. Os lábios tão bonitos, tão delicados. Eu queria beijá-lo. Eu queria poder ao menos abraçá-lo. Mas o que diria a sua crueldade se eu o fizesse? Eu não suportaria ser rejeitado por ele.

Suspirei fundo, e disse qualquer bobagem para calar o silêncio. Ele riu. Seu riso era tão bonito, alegre, espontâneo. Parecia encher o quarto de cor, e me encher daquela esperança infantil de pessoa apaixonada. Talvez ele gostasse de mim do jeito que eu gostava dele. Ou talvez não.

Os dias se passavam, e aquela dor crescia dentro do meu peito. Eu era novo demais para amar tanto. Eu deveria ao menos amar uma garota. Mas nenhuma havia me tocado com ele. Ele era alguém que me fazia rir, que me ajudava, que se preocupava comigo, perguntava se eu estava bem. E naquele dia eu não consegui mentir. Doía demais, assombrava-me como um fantasma. Eu acabei dizendo a ele que estava com um problema.

E depois de desconversar tanto, eu acabei dizendo a ele. Tudo aquilo que me sufocava, machucava. Quase chorei, pensando que ele nunca mais iria querer me ver a sua frente. Mas não havia motivo para tanto receio, ele estava rindo. Com aquele riso que eu gostava tanto de ouvir. Meu coração começou a bater rápido, preenchido por uma emoção, uma ansiedade, que me deixou tonto, quase me fez desmaiar. Ele sentia o mesmo.

Que grande ilusão. Ele ria apenas por não acreditar na minha seriedade, por achar ridículas as minhas palavras. Eu concordava com ele que elas eram ridículas. Concordava até mesmo que talvez eu estivesse mentindo. Porque todas as palavras e definições pareciam fracas demais para explicar o que eu sentia por ele. Pensei que ele estivesse com medo de acreditar. Com medo de perder a minha amizade por causa de seu medo de mim.

Eu não poderia culpá-lo por temer uma aberração. Tudo o que eu podia fazer era ficar grato por ele ainda ser meu amigo. E deixar que eu segurasse a sua mão.

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Eurythmics - Sweet dreams
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Dada Pig

Aquela figura alta, muito maquiada, de trejeitos falsamente femininos, moveu-se em sua direção. Parecia analisá-lo, detalhe por detalhe, com aqueles seus frios olhos azuis. Rodeava-o, como um abutre rodeando a sua carniça.

Porém com o tempo, o receio pareceu diminuir, dando lugar a uma sensação estranha de cumplicidade. Era como se os dois se conhecessem tão bem que seu beijo parecia se encaixar perfeitamente.

E me prendeu tão fortemente, com aqueles pequenos braços que eu conheço apenas em meus pensamentos. As pequenas mãos que percorrem meu corpo quando meus olhos se fecham. Sonhos que de tão vulgares me parecem puros. A peculiar sensação que me toca sempre que imagino aquele encontro. O paradoxo. Um desejo tão inocente...

E quando ele oficialmente se tornou meu amor platônico, e eu oficialmente tornei-me seu servo submisso, adorador da sua figura divina, tudo o que ele fez foi me ignorar, e sussurrar em meu ouvido com aquele seu ar sarcástico e estranhamente misterioso:

- Eu sei. Eu notei que você estava me observando. - seus olhos então se voltaram para a garrafa com a água pela metade que o garoto segurava fortemente com as duas mãos. Ele nem sequer devia estar se dando conta que todo seu nervosismo podia ser claramente percebido na forma como ele o fazia. Parecia tão inocente e receoso...

O silêncio entre eles permanecia, sendo quebrado apenas pelo barulho agoniante dos ponteiros do relógio da parede.

Como eu queria, como eu queria poder aprisionar você junto a mim, para que pudesse apenas observar os seus movimentos, dia e noite, para sempre. A aparência triste e cansada de seu rosto, o jeito quieto, delicado, misterioso. Eu queria entender você. Queria saber exatamente o que pensa, o que sonha, o que deseja. Queria ajudar você. Sufocá-lo em meus braços.

O velho palhaço riu mais uma vez da desgraça em que o mundo se encontrava. Guerra, fome, e todas as outras palavras que haviam tornado-se temas de debates em vários diferentes ambientes. Tanto se comentava e nada se fazia. Típico da futilidade do ser humano. E talvez fosse essa futilidade o que tanto o divertia.

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confused confused
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Soft Ballet - I-mess
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The Pig and The Cat

Abri a minha caixa de costura e comecei a remendar o que ainda havia sobrado de um desejo egoísta. Eu não era nada sem aquela roupa que voltava aos poucos a tomar vida sob as minhas mãos. E no entanto eu sentia como se fosse tudo. Tudo o que eu um dia quis ser, tudo o que minha loucura me fez ser. Assassina, perversa, bandida, livre. Simplesmente livre. Alguém acima de regras e convenções, pronta para explorar o que havia no mundo esperando por mim, após tantos anos enjaulada dentro de meu próprio corpo. Era um milagre. Ou talvez apenas uma maldição.

Eu estava sozinha. Caminhava nas ruas invisível como um fantasma. Por mais que homens e mulheres olhassem para mim com os olhos ardendo de desejo, nenhum deles parecia enxergar mais que uma miragem. Foi o suficiente para a minha diversão, porém a graça se perdeu com o tempo.

Eu caminhava sobre os prédios altos da cidade, sentindo a lua revigorar os meus sentidos, sentindo-me mais viva do que nunca. Divertia-me fazendo as coisas mais erradas que podia imaginar. Era estranha a sensação de ver meu nome nas páginas de algum jornal na manhã seguinte. Eles finalmente haviam me notado. E ao mesmo tempo não sabiam quem eu era sob a máscara. Mas quem eu era, afinal? Uma nômade, individualista, vivendo uma vida sem objetivos. Eu gostava disso? Por que eu fazia isso? Por que eu fugi de tudo o que eu conhecia, por que eu fugi da sociedade, por que eu fugi do mundo real, por quê? Perguntava parte de mim à outra, que ria satisfeita.

Mas ambas as partes concordavam que faltava algo. Uma testemunha. Alguém que pudesse presenciar meus feitos, torná-los mais difíceis, mais interessantes, ardentes. Alguém que tentasse me matar e ao mesmo tempo morresse por mim. Eu sabia de quem eu precisava, e esse simples pensamento deixava-me em conflito.

Seria a mulher que sentia falta do homem, ou o predador que sentia falta da sua caça? A mulher e o predador confundiam-se dentro de mim, e confundiam-me com a inusitada constatação de que ele era o que me completava. Um brinquedo perigoso, um príncipe encantado, o inimigo e o amante. Era o meu oposto, ao mesmo tempo em que era tão parecido comigo. Percebi que eu precisava dele como um gato precisa de seu dono. Alguém para me adorar, alimentar a minha fome, em quem eu pudesse cravar as minhas garras, e que não me alcançaria quando eu quisesse fugir.

 
Current Mood:
awake awake
Current Music:
Buck-Tick - Rakuen (Inori negai)
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The red and the black Pig

Eu tive um sonho estranho. Sonhei que era meu aniversário, e eu havia chamado todos os meus amigos para comemorarem comigo em um restaurante da cidade. Mas por algum motivo, ela estava lá. Com aqueles cabelos negros com os quais eu nunca vou me acostumar, aquele ar de menina que eu mesma costumava ter quando a conheci. Ela estava mais calma e quieta do que era em minha memória, talvez até mesmo mais simpática. E havia nela uma beleza tímida que eu nunca vira antes. Porém, não sei por que motivo, eu sentia raiva dela. Tinha um prazer sádico em vê-la triste, irritada. E por isso convidei para a confraternização duas garotas que costumavam ser suas amigas próximas, com quem ela brigara há algum tempo. Uma delas eu sequer conhecia. Ela tinha seu mesmo nome, e usava roupas pretas esquisitas. Seus cabelos eram longos, cacheados, em um tom avermelhado de castanho. Simpatizei com ela à primeira vista. Era tão forte, inteligente, articulada. Tratava com desprezo a garota de mesmo nome. E vendo-as se segurando para não brigar, eu só conseguia rir. Ria porque elas eram iguais, simplesmente iguais, e mesmo assim insistiam em ver defeitos uma na outra, defeitos que compartilhavam.

Acordei com saudade delas.

Current Mood:
thoughtful thoughtful
Current Music:
Love and Rockets - Pink Flamingo
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Pig to Pig

Por que eu tenho tanto medo de escrever sobre você ou para você? Surpreendo-me pensando que talvez todas as minhas crenças quase céticas à respeito do assunto sirvam apenas para as relações entre as outras pessoas, e não para as relações entre nós. Nós duas. Por que não explicitar isso? Às vezes me pergunto se você não é apenas um fruto da minha imaginação, mais uma idealização de algo que eu não posso tocar. E talvez seja. Talvez toda a magia construída em meias-palavras se acabe no dia em que eu puder ver você à minha frente. Porém meu romantismo inexorável acaba por controlar esses pensamentos. Ele cria cenas tão belas dentro de minha mente. Cenas impuras, repudiáveis. Creio que já deixei claro que eu a desejo, mais do que a qualquer outra pessoa. Talvez também deva deixar claro o quanto eu odeio a todos que têm o previlégio de tocá-la. Eu queria conseguir pensar no seu bem estar, no quanto você precisa de alguém ao seu lado que a faça sorrir, que a faça se sentir amada. Mas eu não consigo. Tudo o que há em minha mente, em meu corpo, e - por que não? - minha alma, é esse desejo egoísta de ser eu, e apenas eu, a pessoa que a faz feliz. E como é sem sentido esse desejo... Tudo o que sempre consigo é fazer você chorar, sentir minha falta, ou quem sabe até mesmo me odiar. E eu sequer consigo lhe dizer tudo isso diretamente. Talvez seja mesmo apenas a minha imaginação doentia.

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blank blank
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Siouxsie and the Banshees - Face to face
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Pig dreams are made of this

Eu havia chegado em casa feliz aquela noite. Estivera com um homem interessante, bonito para os meus padrões, em uma festa divertida. Pensava em convidá-lo para sair comigo em algum outro dia, pensava que poderia tornar-me amigo dele, ou quem sabe até mesmo algo mais. Não havia reclamações.

E assim que fechei os olhos, não foi a imagem daquele homem que surgiu em meus pensamentos. Foi a sua. Você, deitado sobre a grama, os cabelos castanhos caídos sobre seu rosto corado, os olhos semi-cerrados fixos em mim. E eu esperara tanto por esse dia, pelo dia em que eu finalmente teria coragem de me aproximar de você, e beijar seus lábios. Seu beijo era tão suave, lento, delicioso...

Passou algum tempo até que eu pudesse ver você de novo. Mas um dia eu o vi tocar a campainha de minha casa. Estava fantasiado de pirata. Achei-o gracioso com aquelas roupas, ri com ternura, e você sorriu de volta para mim. Adentrou a sala de estar, sentindo-se confortável naquele lugar, confortável com a minha presença. E sentou-se confortavelmente no sofá. Disse-me que estava cansado, estava em uma festa à fantasia ali perto e resolveu ir me ver. Eu estava tão feliz de poder vê-lo depois de tanto tempo sentindo a sua falta. Estava feliz por saber que o mar finalmente o trouxera de volta para mim.

Você acabou dormindo ali mesmo sobre o sofá, todo aquele o cansaço o deixara com muito sono. E ao vê-lo dormir tão calmo e sereno, não consegui conter o sorriso que se fez em meu rosto. Uma de minhas mãos tocou de leve os seus cabelos, seu rosto. Aproximei-me para lhe dar um breve beijo de boa noite na bochecha, e você me surpreendeu ao procurar meus lábios com os seus, mostrando-se ainda acordado. Aquela sensação de satisfação subiu por minha espinha. Você ainda se lembrava do nosso beijo sobre a grama. E aquela carícia agora era algo permitido em nossa amizade. Com um sorriso, você me disse boa noite, e voltou a fechar os olhos para dormir. Fui para o meu quarto feliz como há muito não me sentia.

Naquela manhã, assim que eu me levantei da cama, você apareceu em meu quarto. Vestia apenas sua roupa íntima, e não se sentia desconfortável por isso. O olhar que você me lançou deixou-me sem ar. O que acontecera com o garoto inocente, tímido, frágil...? Seu rosto agora era sério, vazio, bravo, cruel. E isso me hipnotizava. Observei-o se sentar sobre minha cama, as pernas entreabertas, um objeto pontiagudo em sua mão. Começou a cortar a própria barriga, causando-me certa preocupação. Eu sabia que você tinha o hábito de se cortar, e isso sempre me preocupara. Você também sabia disso, por que outro motivo o teria feito? Mas naquele momento não era apenas preocupação o que você queria me causar. Sua voz sempre tão dócil e meiga, agora era forte, sarcástica. Convidava-me. Dei alguns passos em direção à cama, e ajoelhei-me à sua frente, aceitando o seu convite, hipnotizado pela maldade em seu rosto, sua voz, seus atos. Meu corpo tornava-se febril apenas com o pensamento do que eu poderia fazer com aquela parte de você que eu desconhecia. Minha língua traçou ansiosa os cortes que você fizera em sua barriga, e minha mão não tardou a tocá-lo sobre a roupa íntima. Eu o desejava tanto, sentia que poderia fazer qualquer coisa que você me pedisse. E você sabia disso. Deixava que eu o satisfizesse. Seu rosto contraía-se em uma expressão vulgar, e aqueles gemidos altos escapavam de seus lábios livremente. Senti-me enganado. Onde estava aquela inocência que eu sempre vira em você? Você parecia saber exatamente o que estava fazendo. Estava brincando comigo. Zombava de mim dizendo que havia notado que eu sempre quisera beijá-lo, sempre quisera tocá-lo.

Zombava de mim como se soubesse que nenhum momento real estaria tão vivo em minha memória quanto aquele sonho.

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Eurythmics - I could give you (a mirror)
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There's no Pig like home

Adentrou aquela casa que em qualquer outro momento lembraria a monotonia. Talvez estivesse com saudade dela, da monotonia. Não havia enfrentado grandes e perigosas aventuras, porém estivera trancafiada em algum lugar do passado, presa a uma rotina bizarra, junto a pessoas cujas palavras não lhe faziam sentido algum. Haveria sido um pesadelo? Um daqueles de que não se consegue acordar, por mais que se grite em pensamento, tentando inutilmente mover-se sobre uma cama que não existe. Até o momento em que os olhos se abrem, não por ordem da mente, e sim por ordem do corpo. Era esse mesmo alívio. E podia até mesmo acrescentar a ele algum tipo estranho de felicidade.

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happy happy
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Oingo Boingo - Stay
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Always the same Pig

Era curioso que o maior prazer na vida dela fosse servir. Acordava cedo, e sem que ninguém lhe mandasse, começava a fazer o seu trabalho, sem parar por um segundo sequer. Tinha certeza de que era a melhor, e nunca permitia-se errar. Trabalhava tão duro que parecia não ter tempo para pensar. Não tinha tempo para sonhos e ambições. No seu momento de folga, prendia os olhos na pequena televisão preto e branco que ela mesma comprara, com seu próprio dinheiro, e deixava-se hipnotizar por algum programa sem conteúdo. Sorria bobamente, com uma alegria quase infantil. E eu me perguntava em silêncio se aquela felicidade era fruto de sua ignorância, ou se sua ignorância era fruto de sua felicidade.

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curious curious
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Garbage - Bleed like me
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Bad bad Pig
    Ele era apenas seu amigo quando decidiu que queria beijá-lo. O que diabos ele queria consigo, foi o pensamento que lhe ocorreu. Afastou-se, disse-lhe diversas vezes que não, porém sua insistência acabou vencendo. Não era tão ruim, tentou enganar-se. Para alguém que tinha tanta fama e fazia tanta propaganda de si próprio, era um verdadeiro desastre. Ele tentava de diversas maneiras entretê-lo, fazê-lo gostar daquilo, porém à cada nova investida de suas mãos ousadas e pouco habilidosas, tudo o que conseguia sentir era mais nojo. Curioso, acabou sentindo-se tentado a tocá-lo da mesma maneira como ele toda vez insistia em tentar tocar em si. Apenas para deixar a experiência ainda mais traumatizante. E então para sua felicidade, o outro resolveu desistir. E naquele momento convenceu-se de que era heterossexual. Ou talvez assexuado. Ou talvez seu amigo simplesmente fosse muito ruim naquilo. Não importava.
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sleepy sleepy
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Garbage - I think I'm paranoid
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Waiting for a Pig

A espera parecia interminável. Sua ansiedade crescia à cada movimento que fazia o ponteiro dos segundos em seu relógio. Olhava impaciente ao redor, esticava o pescoço a fim de conseguir vê-lo dobrar a esquina. Porém não havia sinal de sua presença.

Foi então que o medo lhe tomou. Teria ele se esquecido daquele encontro, se esquecido de sua existência? Seu pessimismo lhe gritou que sim. Mas preferia se iludir pensando que ele morrera no caminho. Soava melhor para o seu orgulho.

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exhausted exhausted
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Lacuna Coil - My wings
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Trick or Pig?

Era Halloween. Tempo de se divertir com a fantasia, com o medo. Por que as pessoas pareciam gostar tanto de assustar e serem assustadas, perguntava-se a mulher que entregava algumas balas baratas às crianças que batiam à sua porta - apenas para que elas não a perturbassem.

Sentou-se entediada no sofá da sala, e voltou a olhar para a tela da televisão, sem realmente prestar atenção no programa que passava. Às vezes pensava ainda ser jovem demais para levar aquela vida sedentária e sem qualquer tipo de emoção. Talvez precisasse se aventurar mais. Ou talvez tivesse preguiça demais para isso.

A campainha tocou, forçando-a a se levantar mais uma vez. Já havia até mesmo tirado as balas do saco para entregar às malditas crianças quando abriu a porta. Porém seus olhos não fitaram as cabecinhas escondidas em fantasias de monstros onde elas deveriam estar, e sim um par de calças pretas de tecido acetinado. Foi aos poucos levantando a cabeça, percorrendo o olhar por uma elegante camisa preta que fazia contraste com aquela pele tão pálida. Seu queixo era comprido e quadrado, seus lábios eram carnudos, suas maçãs do rosto eram marcadas, seus olhos profundos, suas sobrancelhas arqueadas, os sedosos cabelos negros caídos sobre seu rosto.

- Trick or treat. - ouviu sua voz grave pronunciar.

Era um som tão belo, era exatamente o que parecia completar aquela exótica figura. As balas caíram de sua mão sem que sequer percebesse.

- Você não está velho demais para pedir doces? - ela perguntou confusa.

- Você já deveria saber que o que eu quero não são doces. - e um sorriso largo e enigmático se fez em seus lábios.

Bateu a porta na cara do desconhecido. Era um assaltante! Ou pior, um estuprador! Porém por um momento considerou interessante a possibilidade de ser estuprada por aquele homem... Levou uma das mãos à testa, como se quisesse frear os seus pensamentos. Estava mesmo em um estado lamentável.

Virou-se de costas após alguns segundos, convencendo-se de que o estranho já havia ido embora. Porém o que seus olhos viram sentado sobre seu próprio sofá tirou-lhe o fôlego.

- Como? - foi a única palavra compreensível que escapou de seus lábios gaguejantes e trêmulos.

O homem apenas sorriu levemente, fixando nela seu olhar profundo.

Ela sentiu o corpo todo gelar. Respirou fundo.

- O que você quer? - perguntou-lhe nervosa.

Ele se levantou do sofá, e começou a caminhar em sua direção, com seus passos precisos e vagarosos. Por um momento se passou pela cabeça da mulher abrir a porta de casa e sair correndo, porém o pensamento de que aquele estava sendo o único momento emocionante de sua vida em pelo menos três anos acabou a impedindo de se mover.

Sentiu o corpo do homem prender o seu próprio contra a porta, seus dedos longos penetrarem-lhe os cabelos, seu toque firme os segurando. E seus lábios entreabertos sopraram quente em seu pescoço.

- Eu quero a sua alma... - ele susurrou.

- Ela é toda sua... - a mulher murmurou em resposta, cerrando os olhos e agarrando-se ao outro.

Porém ele se afastou de súbito, um pouco incrédulo.

- Você vai desistir da própria alma tão fácil assim? - perguntou a ela com os olhos arregalados em surpresa.

A expressão no rosto da mulher parecia confusa. Aquilo também fazia parte da brincadeira?

- Por que não? Ela nunca serviu para nada mesmo... - respondeu sorrindo.

E o rosto do homem se iluminou com um sorriso radiante.

- Muito obrigada, senhorita. - ele lhe disse com simpatia.

Então empurrou-a para o lado, a fim de abrir a porta onde ela estava encostada.

E a pobre mulher observava ainda mais confusa o homem abrindo a porta de sua casa alegremente. Notou que ele realmente pretendia ir embora.

- Ei, espera, e a noite de sexo ardente? - foi sua triste indagação.

O rosto do homem se contraiu no que ela interpretou como nojo, e então ele sorriu sem graça.

- Outra hora, querida. - respondeu, já com metade do corpo para fora da casa. - Agora estou ocupado colhendo almas. - disse, já caminhando alguns passos para longe dali. - Adeus! - foi sua última exclamação.

Após permanecer algum tempo paralizada tentando compreender o que era aquilo que acabara de acontecer, ela decidiu ir atrás do homem. Porém ao dar o primeiro passo para fora de casa, ele já havia se perdido de vista.

Trancou a porta de casa e suspirou cansada. Arrastou os pés até o sofá, e voltou a sentar-se em frente à televisão.

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cheerful cheerful
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Duke Ellington - East St. Louis Toodle-oo
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A child and a Pig

Tinha gosto de infância, foi o que seus sentidos lhe disseram assim que o primeiro pedaço da torta tocou a sua língua. Tinha gosto dos dias em que ao sair do colégio, triste por não ter amigos, a coisa que a fazia mais feliz era sentir o gosto adocicado de chocolate em sua boca, os pedaços de biscoito desfazendo-se em meio à saliva. Porém todo aquele doce já não agradava muito o seu paladar acostumado com as coisas amargas.

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calm calm
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Ella Fitzgerald - They can't take that away from me
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Another Pig story

Ele me deixou uma mensagem. Queria que eu me encontrasse com ele, em qualquer lugar remoto em que ele pudesse usurfruir livremente de meu corpo como se eu fosse sua prostituta. É claro que eu não poderia negar o seu chamado.

No entanto o que eu encontrei não foi um homem com o fecho da calça aberto e a língua vulgar percorrendo os seus lábios, o que eu encontrei foi um homem desmaiado no chão.

Um pouco hesitante, eu me aproximei, chamando o seu nome em um murmúrio receoso, na inútil tentativa de acordá-lo. O que havia sido daquela vez? Excesso de drogas? Ajoelhei-me no chão, e com uma mão trêmula, toquei o seu rosto. Estava frio. Ele estava morto, foi o que eu logo pensei, afastando-me de súbito.

Ou então aquela seria mais uma de suas brincadeiras para me amedrontar, para me excitar. Bati em seu rosto, gritando seu nome, gritando que nada daquilo tinha graça. Queria que ele parasse de brincar. Porém ele parecia uma criança desobediente.

Current Mood:
sleepy sleepy
Current Music:
Kraftwerk - Sex object
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This little Piggy goes blurp

Você já experimentou a decadência?! Ou pelo menos viu-se em uma situação tão ridiculamente decadente que até mesmo teve vontade de rir?! Eu adoro essa sensação. Um resfriado comum torna-se uma doença incurável, um soluço torna-se motivo de sofrimento. A noite torna-se vazia, sombria e fria - por mais calor que esteja fazendo -. O rosto torna-se cansado, e as feições parecem subitamente dez anos mais velhas. Os cabelos tornam-se um estranho aglomerado de fios desgrenhados sobre a cabeça. Então os movimentos começam a tornar-se mais lentos, os pensamentos mais profundos, o futuro mais terrível. Para que eu ainda respiro, afinal? Para que ainda mantenho um organismo com vida se aquela essência - que talvez eu até mesmo poderia chamar de alma - já está morta há muito tempo? Eis que surge a letargia. Um corpo inerte à espera da morte iminente que sempre parece tão distante. É genial...

Current Mood:
amused amused
Current Music:
Oingo Boingo - Heard somebody cry
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